Tradição sob Cabresto: A Politização que apequenou a 9ª Festa do Carro de Boi na Vila Nova

Opinião – Por Diego Rodrigues

A Festa do Carro de Boi no distrito da Vila Nova, em Coribe, sempre foi mais do que um evento; é um monumento à resistência cultural do Oeste Baiano. Ver carreteiros de diversos municípios vizinhos chegando para mostrar a força de seus bois, a qualidade de seus produtos e a perícia de seus serviços é um espetáculo que gera renda e orgulho para nossa região. No entanto, a 9ª edição do evento, realizada recentemente, deixou um gosto amargo na boca de quem esperava cultura e recebeu, em vez disso, um palanque eleitoral fora de hora.

O que deveria ser uma celebração da identidade rural foi cooptado pela política partidária. O evento, custeado com recursos que deveriam servir ao povo, transformou-se em um desfile de pré-candidatos a prefeito e a deputado. O atual gestor, Murilo Ferreira Viana, preferiu usar o microfone para discursos acalorados em vez de exaltar a tradição dos carreteiros. Quando a política senta na boléia do carro de boi, a cultura acaba sendo atropelada.

Banner político durante o evento cultural do carro de boi
Deputado Estadual Manuel Rocha, Vereador Sebastião e o pré-candidato a deputado estadual, Elinaldo.

Essa prática de transformar eventos públicos em “palanque da situação” não é nova, mas tem se tornado cada vez mais escancarada. Como já pontuou o movimento de controle social @NossaCoribe, há uma “politização excessiva” em debates e ritos que deveriam servir à comunidade, onde os agentes políticos disputam narrativas enquanto os problemas reais são empurrados para debaixo do tapete.

A gestão municipal não mediu esforços logísticos, colocando em circulação toda a frota de transporte escolar para garantir volume ao evento. Porém, volume não significa adesão. A população de Coribe parece estar sentindo o “cansaço dos discursos“. É irônico ver uma mobilização tão grande de veículos para uma festa, enquanto a mesma gestão enfrenta duras críticas e fiscalizações do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA) por falhas em serviços essenciais.

Vale lembrar que, enquanto o palanque ardia em promessas na Colônia, a prefeitura tenta empurrar uma concessão de saneamento de R$ 28,5 milhões sob suspeita de graves irregularidades, como a falta de parecer jurídico e detalhamento de custos. Além disso, o próprio TCM está realizando um “pente-fino” nas folhas de pagamento da prefeitura para identificar possíveis servidores fantasmas ou acúmulos ilegais. É um contraste gritante: enquanto o grupo político se autopromove, o distrito sofre no isolamento, sem sinal de celular da TIM ou de qualquer outra operadora, e padece com a falta de água doce, sendo a população obrigada a consumir água insalubre.

O carro de boi merece respeito. O carreteiro que viaja quilômetros não vem para ser figurante de campanha política; ele vem para competir, para negociar e para manter viva uma história. Quando o governo utiliza um evento deste porte para autopromoção, ele ignora o fato de que a população quer resultados práticos, não gritos ao microfone.

Como bem destaca o sentimento das redes sociais em Coribe: “o problema não é quem votou em quem“, o problema é a falta de serviços eficientes e a transparência no uso do dinheiro público. Coribe precisa de uma gestão que governe para as próximas gerações, e não apenas para a próxima eleição. Que na 10ª edição, os bois e o som das rodas do carro falem mais alto do que a sede de poder de quem está no comando.


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