Terror no Oeste Baiano: Quem São os ‘Cariocas’ Acusados de Liderar Invasão Armada em Jaborandi

A Polícia Civil da Bahia instaurou um inquérito para apurar uma grave denúncia de invasão de propriedade, sequestro relâmpago e roubo, ocorrida na última sexta-feira (20 de março), no município de Jaborandi. De acordo com o Boletim de Ocorrência registado na Delegacia Territorial de Santa Maria da Vitória, um grupo armado teria invadido uma fazenda na região de Cascavel e Onça, fazendo trabalhadores reféns.

Segundo informações constantes no registo policial e depoimentos das vítimas, a invasão teria sido coordenada pelos irmãos Moisés de Souza Boechat e João Batista de Souza Boechat, naturais do Rio de Janeiro e conhecidos na região pelo apelido de “Cariocas”. O grupo, composto por cerca de dez homens encapuzados, teria rendido o posseiro Vanderlei Brito de Souza e os seus funcionários.

De acordo com a denúncia, durante a ação, um dos trabalhadores teria sido levado em um sequestro relâmpago sob ameaça de morte. A vítima relatou ainda que os invasores teriam subtraído uma pistola Taurus G23 que se encontrava no interior da residência.

A motivação do incidente estaria ligada a uma disputa de terras (esbulho possessório) nas margens dos rios Pratudão e Formoso. Segundo levantamento técnico anexado à denúncia, os nomes citados no Boletim de Ocorrência possuem histórico de processos judiciais em diversos estados, como Bahia e Mato Grosso, envolvendo conflitos fundiários e ações civis públicas.

Moisés Boechat – Foto: Arquivo/Polícia Civil

Consta ainda nos registos policiais que um dos investigados já teria sido detido anteriormente, em outubro de 2022, no Rio de Janeiro, por porte ilegal de arma de fogo. O caso está sob responsabilidade da Delegacia Territorial de Santa Maria da Vitória, que apura os fatos para determinar a materialidade dos crimes de invasão de propriedade, formação de quadrilha e roubo. As vítimas formalizaram o pedido de segurança e a manutenção da posse junto às autoridades competentes.

As investigações apontam que a investida contra a propriedade de “Ney da Prainha” não teria sido um ato isolado ou espontâneo. Informações colhidas pela nossa reportagem indicam que, na noite anterior ao ataque (19 de março), teria ocorrido uma reunião estratégica na cidade de Jaborandi com a presença dos irmãos Boechat e outros integrantes do grupo armado.

Ainda mais alarmante é o relato de que o grupo teria utilizado uma fazenda vizinha como base logística para lançar a invasão. De acordo com os depoimentos, essa propriedade pertenceria a um terceiro com expressiva influência política na região. Embora o nome desse político ainda não tenha sido confirmado oficialmente pelas autoridades no inquérito, a circunstância narrada pelas vítimas amplia a necessidade de uma investigação rigorosa para apurar se existe uma rede de proteção por trás das ações do grupo.

A violência empregada foi além da ocupação física da terra. Segundo a narrativa de Vanderlei Brito, que possui registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador), os invasores encontraram sua pistola Taurus G23, devidamente legalizada, dentro de uma mochila.

Nesse momento, o pânico se intensificou: um dos invasores teria efetuado um disparo de arma de fogo a poucos centímetros dos pés de Vanderlei. O “recado”, segundo a vítima, era inequívoco: usar o terror para silenciar qualquer tentativa de resistência ou denúncia futura. Enquanto isso, um de seus trabalhadores era mantido sob privação de liberdade em um sequestro relâmpago, tática usada para demonstrar força e consolidar o domínio da área por meio do pavor.

O caso de Jaborandi deixa de ser um fato isolado quando analisado o extenso histórico judicial dos irmãos Boechat. Eles aparecem como réus ou investigados em uma série de processos que revelam um “mapa do esbulho” em diferentes estados, sugerindo uma atuação profissionalizada em conflitos possessórios.

Entre os registros mencionados no dossiê da defesa e em consultas públicas, destacam-se:

  • Bahia (Correntina): Processo 8000673-94.2021.8.05.0068 (Esbulho Possessório).
  • Mato Grosso (Canabrava do Norte e Feliz Natal): Diversas Ações Civis Públicas e processos por invasão (ex: 1001920-26.2023.8.11.0059 e 1000225-95.2024.8.11.0093).
  • Rio de Janeiro: Inquéritos policiais por esbulho e o auto de prisão em flagrante de Moisés Boechat (0804339-64.2022.8.19.0075) por porte ilegal de arma de fogo.

Diante da gravidade dos relatos que incluem invasão de domicílio, ameaça armada e sequestro a produtores do Oeste Baiano agora questiona a eficácia das instituições. Para Ney da Prainha e seus trabalhadores, a sensação é de vulnerabilidade extrema.

A defesa da vítima reforça que o receio de violência já havia sido formalizado através do Boletim de Ocorrência Virtual nº 00222085/2026, o que demonstra que a tragédia foi anunciada. A pergunta que resta é: até quando produtores e trabalhadores rurais seguirão expostos a ações dessa natureza sem uma resposta rápida, enérgica e exemplar por parte do Estado?

NOTA DE REDAÇÃO: O Portal Correntina mantém o compromisso com a verdade e a isenção. O espaço segue aberto para que os citados apresentem suas versões. A investigação segue em curso na Delegacia Territorial de Santa Maria da Vitória.

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