O Perigo da Leitura Rasa: Porque a Falta de Interpretação de Texto Gera Violencia e Atraso
Estudos mostram que o analfabetismo funcional não afeta apenas a economia, mas a convivência social. Quando o cidadão perde a capacidade de entender o que lê, a argumentação morre e dá lugar ao ataque pessoal.
Em um município como Correntina com altos índices de matrícula escolar, enfrentamos um inimigo silencioso e muito mais perigoso que o analfabetismo total: o Analfabetismo Funcional.
O Instituto Paulo Montenegro define o analfabeto funcional como aquele que, mesmo escolarizado, não consegue extrair o sentido de textos médios ou longos, não identifica ironias, não compreende comparações e, principalmente, não consegue interpretar dados técnicos.
A Raiva como Sintoma da Incompreensão
Psicólogos e educadores alertam para um fenômeno comum nas redes sociais: a agressividade como defesa da ignorância. Quando um indivíduo se depara com um texto que contém fatos, números ou uma análise crítica que seu cérebro não consegue processar completamente, a reação natural não é perguntar ou debater, mas sim atacar o mensageiro.
Em Correntina, vemos isso diariamente. Diante de matérias jornalísticas que expõem contratos, valores e dados oficiais (como Diários Oficiais), uma parcela da população reage com insultos pessoais aos jornalistas. Por que isso acontece?
O leitor funcional não consegue separar o fato (o gasto de dinheiro público) da pessoa (o político que ele gosta). Para ele, qualquer crítica técnica aos números é sentida como uma ofensa pessoal. Se o texto diz “A prefeitura gastou X, o que daria para fazer Y”, o analfabeto funcional não entende o conceito de custo de oportunidade. Ele entende apenas “estão falando mal do meu candidato”.
O analfabetismo funcional é o sonho de qualquer má gestão. Cidadãos que não interpretam textos são mais fáceis de serem manipulados por discursos emocionais. Eles aceitam justificativas rasas como “isso ajuda a economia” ou “sempre foi assim”, porque não possuem as ferramentas cognitivas para questionar a profundidade do problema.
Diferente do analfabeto absoluto, que sabe que precisa de ajuda, o funcional acredita que sabe tudo. Ele lê o título, ignora o conteúdo, não checa a fonte e corre para os comentários para destilar ódio. Ele não percebe que, ao fazer isso, apenas confirma a estatística: a falta de leitura liberta os instintos, mas aprisiona o pensamento.
O desenvolvimento de Correntina não virá apenas com o aumento do PIB ou com festas milionárias. Ele virá quando tivermos uma população capaz de ler um contrato público e ficar indignada com o valor, em vez de ficar indignada com quem noticiou o valor.
Combater o analfabetismo funcional é urgente. Até lá, continuaremos vendo seções de comentários onde a falta de interpretação de texto é gritada em caixa alta, provando que, para alguns, a letra existe, mas o entendimento passou longe.
