A POLÍTICA DO FAZER: COMO A SOCIEDADE CIVIL CONSOLIDOU A FEIRA DO RANCHINHO 🧺✊
Enquanto muitos esperam por soluções que vêm de cima, o povo do Distrito do Ranchinho, no Município de Coribe-BA, decidiu escrever sua própria história. A Feira Livre do Ranchão não é apenas um lugar de comércio; é um manifesto político de uma comunidade que resgatou uma tradição dos anos 70 para transformar o presente.

A FORÇA QUE VEM DO POVO
A Feira Livre do Ranchão tornou-se um dos principais pontos de encontro da comunidade aos sábados no Distrito do Ranchinho. O projeto nasceu da mobilização popular dos organizadores Kelly Keylla, Jadiel Rocha, Milton Baliza, Diego Rodrigues, Cilene Barros e Thaynara Costa e do desejo dos moradores de resgatar uma tradição local, fortalecendo a economia e a convivência comunitária por meio de uma iniciativa construída coletivamente.

Ao longo dos meses, a iniciativa consolidou-se como um importante espaço de comércio, convivência e valorização da produção local. Em eventos de grande porte promovidos pela organização, o público já chegou a aproximadamente 1.800 pessoas, demonstrando a capacidade da feira de mobilizar não apenas a população do distrito, mas também visitantes de diversas localidades do município que passaram a frequentar o evento regularmente aos sábados.

Curiosamente, a experiência dos feirantes revela um cenário que parece contraditório à primeira vista. Embora os grandes eventos atraiam um número expressivo de visitantes, os sábados com público moderado costumam proporcionar uma distribuição mais equilibrada das vendas entre as barracas. Nesses dias, os consumidores circulam com mais tranquilidade pelo espaço e tendem a realizar compras em diferentes estabelecimentos, beneficiando um número maior de feirantes.
Esse crescimento não aconteceu por acaso. Ele é resultado do trabalho contínuo de uma comissão organizadora que busca manter e expandir a feira mesmo diante das limitações de apoio e dos desafios estruturais enfrentados pelo projeto.
DESAFIOS E RESILIÊNCIA
O crescimento da Feira Livre do Ranchão foi acompanhado por desafios que continuam exigindo dedicação da comissão organizadora e dos feirantes. Entre os desafios enfrentados pela organização estão a ausência de uma cobertura adequada para o espaço, situação que deixa comerciantes e consumidores vulneráveis durante períodos de chuva. Também são apontadas demandas relacionadas à manutenção dos banheiros públicos localizados nos quiosques da praça, importantes para garantir mais conforto e dignidade aos feirantes, visitantes e consumidores que frequentam a feira semanalmente.
A infraestrutura também tem sido uma das maiores preocupações da organização. Problemas recorrentes na instalação elétrica das barracas já provocaram falhas no fornecimento de energia, dificuldades operacionais e até prejuízos causados por danos a equipamentos utilizados pelos feirantes. Apesar dos alertas e das solicitações encaminhadas ao poder público (Prefeitura Municipal de Coribe) ao longo dos últimos meses, a solução definitiva para o problema ainda não foi implementada.
Diante desse cenário, a própria organização da feira decidiu buscar alternativas. Além de arrecadar recursos junto à comunidade, os responsáveis pelo projeto solicitaram orçamento técnico para viabilizar a compra dos materiais e a execução dos serviços necessários, assumindo custos que, na avaliação dos organizadores, seriam fundamentais para garantir mais segurança e melhores condições de trabalho aos feirantes.
Buscando fortalecer a organização do evento e oferecer maior segurança jurídica aos feirantes, a comissão também solicitou à Prefeitura Municipal de Coribe a publicação de um decreto regulamentando o funcionamento da feira. A proposta visa formalizar regras já adotadas pela comissão, como a proibição do uso de som automotivo durante o evento e o fechamento das vias no entorno da praça durante a realização da feira, medidas consideradas importantes para garantir a segurança dos visitantes, a ordem do espaço e o caráter familiar do projeto.
Mesmo diante das dificuldades, a feira mantém uma estrutura organizada e regras que contribuem para o seu bom funcionamento. Sem investimentos suficientes em infraestrutura, os próprios feirantes ajudam a sustentar a organização por meio de uma contribuição semanal simbólica. Os recursos arrecadados são utilizados para custear serviços de limpeza, montagem e desmontagem das barracas, aluguel de equipamentos de som, manutenção da estrutura e outras despesas relacionadas à realização do evento.
GESTÃO COLETIVA E SOLIDARIEDADE
Um dos maiores símbolos da união que sustenta a Feira Livre do Ranchão está nos sorteios realizados semanalmente. Mais do que uma atração para os visitantes, eles representam uma verdadeira corrente de solidariedade construída pela própria comunidade. Sem recursos públicos destinados a essa finalidade, os prêmios são viabilizados por meio de doações espontâneas de comerciantes, produtores rurais, feirantes, apoiadores e amigos da feira.
A rede de colaboradores ultrapassou os limites do distrito e do próprio município. Pessoas que acompanham o projeto pelas redes sociais, inclusive moradores de outros estados, já contribuíram com produtos para serem sorteados. Ex-moradores do Ranchinho e familiares de feirantes também participam ativamente, demonstrando que o sentimento de pertencimento à comunidade permanece vivo mesmo à distância.
Entre os prêmios já sorteados estão vale-gás, vales-compra de R$ 50 e R$ 100, alimentos, utensílios domésticos e diversos outros brindes doados pela comunidade. O Super Ganga, por exemplo, contribui regularmente com um vale-compras de R$ 50 para utilização no supermercado. Em muitas ocasiões, os próprios feirantes doam produtos de suas barracas para compor os sorteios, enquanto a comissão organizadora também assume parte dos custos para garantir que a iniciativa continue acontecendo.
O funcionamento do sorteio é simples e incentiva diretamente o comércio local: a cada compra realizada na feira, o cliente recebe um cupom para participar. Ao final do evento, os números são sorteados aleatoriamente, distribuindo os prêmios entre os consumidores e estimulando a circulação de pessoas pelas diversas barracas.
A transparência na condução dessas ações e a confiança construída junto à comunidade permitiram conquistas cada vez mais expressivas. Atualmente, a feira realiza o sorteio de uma Carteira Nacional de Habilitação nas categorias A e B, fruto de uma parceria entre a Autoescola Oeste e a organização da feira. Também está previsto o sorteio de bezerras, viabilizado pelo apoio de lideranças políticas do município e colaboradores que acreditam no potencial transformador da iniciativa.
CULTURA E RESILIÊNCIA
Mesmo diante de adversidades — como a falta de barracas para atender toda a demanda e a ausência de uma cobertura adequada para proteger feirantes e visitantes durante períodos de chuva — a Feira Livre do Ranchão continua crescendo e ampliando seu papel na comunidade. Além de fortalecer a economia local, o projeto tornou-se um importante espaço de valorização da cultura popular e dos artistas da região.
Ao longo dos meses, a feira recebeu apresentações de diversos músicos e grupos culturais, sempre priorizando talentos locais e contribuindo para a divulgação da produção artística do município. Entre os nomes que já passaram pelo palco da feira estão Oscar e seu filho Carlindo, em apresentações acústicas, além de artistas e grupos como Reisado, Piseiro Nordestino, Fama do Forró, Zé Gama, Lu Silva, Ivan Gabriel e muitos outros que ajudam a manter viva a identidade cultural da região.

A programação cultural também inclui iniciativas comunitárias, como os karaokês realizados pela organização da feira. Nesses eventos, uma taxa simbólica de participação era revertida em premiações para todos os participantes, promovendo integração, lazer e entretenimento para moradores e visitantes.
A relevância cultural alcançada pelo projeto fez com que a feira se tornasse cenário para a gravação do DVD da banda Rancho d’Ouro, um marco importante para a valorização dos artistas locais e para a consolidação da feira como um dos principais espaços de encontro, cultura e convivência do Distrito do Ranchinho.

TRANSPARÊNCIA COMO BANDEIRA
A comissão da Feira Livre do Ranchão entende que os avanços conquistados até aqui representam apenas uma etapa de um projeto maior. Com base na experiência acumulada ao longo dos anos, a comissão já trabalha em iniciativas que visam fortalecer ainda mais a feira e ampliar seus impactos econômicos, sociais e culturais.
Entre os próximos passos está a criação da Associação da Feira, uma medida considerada fundamental para dar mais estrutura administrativa ao projeto, ampliar sua capacidade de captação de recursos e viabilizar novas parcerias. A proposta também busca incentivar a profissionalização dos feirantes, oferecendo melhores condições para que produtores, artesãos e comerciantes fortaleçam seus negócios e ampliem suas oportunidades de mercado.

Outro objetivo é consolidar uma identidade própria para a feira, transformando-a em uma marca cada vez mais reconhecida dentro e fora do município. A expectativa é que esse fortalecimento contribua para a expansão das vendas dos feirantes para outras regiões, agregando valor aos produtos locais e criando novas oportunidades de geração de renda.
A associação também pretende estruturar um calendário de eventos anuais, promovendo ações que valorizem ainda mais a cultura local, as tradições do distrito e os talentos da região. A ideia é que a feira continue sendo um espaço de comércio, mas também de preservação da identidade cultural e fortalecimento dos vínculos comunitários.
Entre os projetos discutidos para o futuro estão iniciativas voltadas ao melhor aproveitamento de resíduos, à sustentabilidade, à busca por políticas públicas voltadas ao desenvolvimento local e à criação de novas ações capazes de beneficiar feirantes, consumidores e toda a comunidade.
A trajetória da Feira do Ranchinho demonstra que a organização comunitária pode produzir resultados concretos. Mais do que um espaço de vendas, a feira tornou-se um exemplo de participação popular, transparência e construção coletiva. Um projeto que nasceu da iniciativa dos moradores e que continua sendo desenvolvido por pessoas que acreditam que o progresso de uma comunidade se constrói com trabalho, cooperação e compromisso com o bem comum.
Para acompanhar de perto o trabalho e as atualizações de Diego Rodrigues sobre inovação política, transparência e inteligência de dados, siga-o no Instagram em @_diegoro e acesse seu perfil profissional e artigos no Portal NoFluxo através do link: nofluxo.org/diegorodrigues/.
Diego Rodrigues também integra a comissão organizadora da Feira Livre do Ranchão, participando ativamente da construção e do desenvolvimento do projeto.
