Não deixe os sonhos morrerem por falta de liderança

Todo mundo já conheceu aquela pessoa cheia de ideias.

Aquela que fala bem, convence na hora, anima o ambiente e sai da reunião com dez voluntários prontos para começar. 

Projeto lindo no papel, grupo animado no WhatsApp, post bonito no instagram. Uma semana depois, silêncio.

Não é falta de causa. Não é falta de gente disposta.

É falta de quem segure o negócio de pé quando o entusiasmo esfria. E ele sempre esfria.

Pega um exemplo que qualquer cidade do interior conhece bem: a ideia de espalhar pontos de ração pela cidade para alimentar os cães de rua. Projeto simples, custo baixo, apelo emocional alto. 

Quando alguém levanta essa bandeira num grupo de amigos, a reação é imediata. Todo mundo quer. Conhecidos topam patrocinar. Jovens topam distribuir. A prefeitura até acena positivamente. Parece que vai.

Só que não vai.

O que falta não é recurso. É alguém que acorde na segunda-feira seguinte, defina quem compra a ração, onde ela fica guardada, quem abastece os pontos, com que frequência, o que acontece quando a pessoa responsável viaja ou fica doente. 

Sem isso, o projeto só vive enquanto o grupo está quente. Quando a primeira dificuldade aparece  e ela sempre aparece não tem estrutura pra seguir em frente.

O projeto morre. E ninguém assume a culpa porque todo mundo estava com boa intenção.

Aqui entra a pergunta que muita gente evita porque a resposta incomoda: liderança é dom ou habilidade?

A resposta honesta é que essa pergunta está mal feita.

Existe sim uma variação natural entre as pessoas. Tem gente que desde cedo lida melhor com grupo, sente o clima, sabe a hora de falar e a hora de calar, consegue fazer o outro se mover sem precisar gritar. Isso existe e não adianta fingir que não.

Mas o que separa quem só inspira de quem de fato entrega resultado vai além do talento natural. O que define isso é o que a pessoa faz com esse talento quando o trabalho fica difícil.

A maioria dos líderes naturais que você conhece são ótimos para começar e péssimos para continuar. Animam, convencem, arrancam o primeiro sim e somem quando o trabalho fica chato, repetitivo e invisível. Que é exatamente quando o trabalho de verdade começa.

Liderar um projeto tem muito pouco da parte glamourosa de apresentar uma ideia. Exige cobrar o que foi combinado, tomar decisão impopular, dizer não quando todo mundo quer dizer sim, aparecer quando ninguém está olhando.

Existe um padrão que se repete com precisão irritante em qualquer cidade pequena.

O grupo começa motivado. Os primeiros resultados aparecem e alimentam o entusiasmo. Aí vem o primeiro problema sério: conflito interno, falta de recurso, membro que some, meta que não se cumpre.

E é aqui que tudo se decide.

O líder que só age na motivação recua, delega para ninguém, fica na narrativa de que “as pessoas não estão comprometidas” como se comprometimento do grupo fosse uma qualidade que aparece sozinha, sem ninguém para cultivar.

A pessoa que desenvolveu a habilidade de liderar enfrenta o problema de frente, redistribui função, ajusta a meta sem abandonar o objetivo, e segura o grupo mesmo quando o grupo está com vontade de se dispersar.

A diferença entre os dois aparece na primeira crise. Qualquer um sustenta o discurso quando tudo está bem.

Formar líderes dentro de um projeto é ainda mais ignorado do que liderar bem.

Quem assume um projeto raramente pensa em preparar alguém para continuar caso ele saia. Parece óbvio quando você lê assim, mas na prática, a liderança centraliza porque centralizar é mais rápido, mais controlado, mais confortável.

O resultado é que o projeto vira dependente de uma pessoa. Quando essa pessoa se afasta, o projeto vai junto.

Os pontos de ração pelos cachorros de rua acabam quando o entusiasta que começou tudo se muda de cidade ou perde o interesse. Porque ninguém foi formado para continuar. 

Ninguém sabe onde fica o contato do patrocinador, nem quanto de ração precisa comprar por mês, nem o que fazer quando um ponto some.

O conhecimento ficou na cabeça de uma pessoa que não está mais lá.

Liderança sem método é espetáculo.

Pode até ser um espetáculo bonito. Mas acaba quando o palco fecha.

O interior da Bahia está cheio de gente com capacidade de mobilizar. O que falta é entender que mobilizar é só o começo e que o trabalho real começa quando a galera se dispersa e sobra só a responsabilidade.

Quem entender isso antes dos outros vai ter uma vantagem que nenhum carisma natural irá substituir.

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